O caso: cozinha em 127 V, circuito de tomadas de uso geral em cabo de cobre de 2,5 mm² com isolação de PVC, dentro de eletroduto embutido (método B1), 12 m do quadro até a última tomada. O morador quer ligar micro-ondas de 1400 W, fritadeira elétrica de 1500 W e cafeteira de 800 W.
Resposta curta: o cabo de 2,5 mm² conduz 24 A e deve ser protegido por disjuntor de 20 A. Isso dá 2.540 W em 127 V e 4.400 W em 220 V. Os três aparelhos juntos somam 3.700 W: não cabem num circuito de 127 V.
1. De onde sai o número 24 A
A capacidade de um cabo não é uma propriedade só do cobre. Ela depende de quanto calor o cabo consegue dissipar sem que a isolação de PVC passe de 70 °C. Por isso a NBR 5410 dá valores diferentes para cada forma de instalação.
Para o caso mais comum em residências, condutores isolados em eletroduto embutido em alvenaria (método B1), dois condutores carregados e ambiente a 30 °C, o cabo de 2,5 mm² conduz 24 A continuamente.
"Dois condutores carregados" é o circuito monofásico normal: fase e neutro em 127 V, ou fase e fase em 220 V. O fio terra não conta, porque não leva corrente em funcionamento normal.
2. Por que o disjuntor é de 20 A, e não de 25 A
A regra de coordenação é: corrente do circuito ≤ corrente do disjuntor ≤ capacidade do cabo. Os disjuntores residenciais são vendidos em valores padronizados: 10, 13, 16, 20, 25, 32 A e assim por diante. O maior que não passa de 24 A é o de 20 A.
Um disjuntor de 25 A ligado em cabo de 2,5 mm² deixaria passar 1 A acima do que o cabo suporta em regime contínuo, sem nunca desarmar. É um erro pequeno no papel e grande em dez anos de uso.
3. Quantos watts isso dá
Para carga resistiva (chuveiro, ferro, fritadeira, aquecedor), potência = tensão × corrente:
| Tensão | Limite pelo disjuntor (20 A) | Limite pelo cabo (24 A) |
|---|---|---|
| 127 V | 2.540 W | 3.048 W |
| 220 V | 4.400 W | 5.280 W |
O número que vale é o da coluna do disjuntor. A coluna do cabo mostra apenas o teto físico, que nunca deve ser usado como referência.
Para aparelhos com motor ou fonte eletrônica, a etiqueta pode trazer a potência em VA ou o fator de potência. Nesses casos, compare a corrente da etiqueta com os 20 A, e não os watts.
4. As três ressalvas que reduzem a capacidade
Agrupamento. Quando vários circuitos dividem o mesmo eletroduto, cada um esquenta os outros. A NBR 5410 aplica fatores de redução: 0,80 para dois circuitos juntos e 0,70 para três.
Temperatura. Em forro sob telhado ou parede que pega sol forte, o ambiente passa de 30 °C. A 40 °C, o fator para PVC é 0,87.
Distância. O cabo pode aguentar a corrente e ainda assim entregar tensão baixa demais na ponta. Esse é o assunto da seção 5.
| Situação | Capacidade corrigida | Disjuntor máximo | Em 127 V | Em 220 V |
|---|---|---|---|---|
| Circuito sozinho, 30 °C | 24,0 A | 20 A | 2.540 W | 4.400 W |
| 2 circuitos no eletroduto | 19,2 A | 16 A | 2.032 W | 3.520 W |
| 3 circuitos no eletroduto | 16,8 A | 16 A | 2.032 W | 3.520 W |
| Sozinho, ambiente a 40 °C | 20,9 A | 20 A | 2.540 W | 4.400 W |
Em apartamentos é comum o eletroduto que sai do quadro levar três ou quatro circuitos juntos nos primeiros metros. Nesses casos, o disjuntor de 20 A em 2,5 mm² já não está coordenado com o cabo.
5. O limite que a distância impõe
A NBR 5410 limita a queda de tensão nos circuitos terminais a 4 %. Com o disjuntor carregado ao máximo (20 A), o cabo de 2,5 mm² alcança:
- 14,1 m em 127 V;
- 24,4 m em 220 V.
Passando disso, a potência utilizável cai com a distância. A tabela mostra a carga máxima que respeita ao mesmo tempo o disjuntor e os 4 % de queda:
| Comprimento do circuito | Máximo em 127 V | Máximo em 220 V |
|---|---|---|
| 10 m | 2.540 W | 4.400 W |
| 15 m | 2.389 W | 4.400 W |
| 20 m | 1.792 W | 4.400 W |
| 30 m | 1.195 W | 3.585 W |
| 40 m | 896 W | 2.689 W |
É por isso que circuitos de tomadas compridos em 127 V costumam ser feitos em 4 mm², mesmo com disjuntor de 20 A.
6. Voltando à cozinha do caso
Somando micro-ondas, fritadeira e cafeteira, chegamos a 3.700 W, ou 29,1 A em 127 V. Isso passa dos 20 A do disjuntor. Ele vai desarmar, e com razão.
A solução não é trocar o disjuntor, e sim dividir as cargas:
- micro-ondas em um ponto de uso específico, com circuito próprio;
- fritadeira e cafeteira no circuito de tomadas da bancada (18,1 A juntos);
- geladeira em outro circuito ou em tomada que não seja disputada com os aparelhos de aquecimento.
A NBR 5410 já orienta nessa direção: cozinhas têm previsão de carga maior por tomada do que salas e quartos, e aparelhos com corrente nominal acima de 10 A devem ter circuito independente. Nos 12 m do caso, o cabo de 2,5 mm² a 20 A tem queda de 3,40 %, dentro do limite.
7. Como ler o que está impresso no cabo
Ao longo da isolação, a cada poucos centímetros, o fabricante imprime:
- "2,5 mm²": a seção nominal. Desconfie de rolos baratos com cobre visivelmente mais fino do que o de outro fabricante com a mesma marcação.
- "450/750 V": a tensão de isolamento do cabo de uso residencial em eletroduto.
- "70 °C": a temperatura máxima do condutor em serviço contínuo, base das tabelas de capacidade.
- Selo do Inmetro e nome do fabricante: fios e cabos de baixa tensão têm certificação compulsória.
Cabo flexível (classe 5) e fio rígido (classe 1) de 2,5 mm² têm a mesma capacidade na tabela. O flexível é mais fácil de passar no eletroduto, mas pede terminal ou ponta bem torcida no borne.
8. Sinais de que o 2,5 mm² está trabalhando no limite
- tomada ou plugue que esquenta depois de alguns minutos de uso;
- disjuntor que desarma só quando dois aparelhos de aquecimento funcionam juntos;
- isolação ressecada ou amarelada perto dos bornes;
- cheiro de plástico aquecido no quadro ou na caixa de tomada.
9. Erros frequentes
- Usar 2,5 mm² com disjuntor de 25 A ou 32 A "porque o de 20 A desarmava".
- Esquecer o agrupamento em eletrodutos que saem cheios do quadro.
- Ligar chuveiro ou torneira elétrica em 2,5 mm²: quase sempre passam dos 20 A.
- Achar que 220 V "gasta mais": o mesmo aparelho consome a mesma energia; em 220 V ele só puxa menos corrente.
10. Perguntas frequentes
Posso ligar um ar-condicionado de 12 000 BTU no 2,5 mm²? Em geral, sim, em circuito exclusivo. Confira a corrente da etiqueta, que costuma ficar bem abaixo dos 20 A.
Chuveiro de 5500 W em 220 V cabe no 2,5 mm²? Não. Ele puxa 25,0 A, acima dos 20 A do disjuntor. Precisa de 4 mm² ou mais.
O cabo de 2,5 mm² vale 24 A em qualquer lugar? Não. Em eletroduto aparente sobre a parede ou em bandeja o valor muda, e com agrupamento ou calor ele cai, como na tabela da seção 4.
Até que distância o 2,5 mm² entrega 2.540 W em 127 V? Até cerca de 14 m. A 20 m, o máximo cai para 1.792 W.
Um aquecedor de 3000 W em 127 V pode ir numa tomada comum de 2,5 mm²? Não. São 23,6 A, acima dos 20 A do disjuntor, e o aparelho ficaria ligado por horas. Em 220 V, o mesmo aquecedor puxa 13,6 A e cabe, de preferência em circuito próprio.
O micro-ondas de 1400 W puxa 1400 W da tomada? Em geral puxa mais. O número em destaque na caixa costuma ser a potência entregue ao alimento; a potência de entrada, maior, vem na etiqueta traseira. Use sempre a de entrada para somar cargas.
Posso usar 1,5 mm² para tomadas? Não. A NBR 5410 fixa 2,5 mm² como seção mínima para circuitos de força; 1,5 mm² é para iluminação.
11. Resumo
| Item | 127 V | 220 V |
|---|---|---|
| Capacidade do cabo (B1) | 24 A | 24 A |
| Disjuntor | 20 A | 20 A |
| Potência máxima | 2.540 W | 4.400 W |
| Alcance a plena carga (4 %) | 14,1 m | 24,4 m |
| Com 3 circuitos no eletroduto | 2.032 W | 3.520 W |
Para o seu comprimento, sua tensão e sua carga, use a calculadora de bitola: ela aplica as mesmas regras deste guia. Alterações no quadro devem ser feitas por eletricista habilitado.
Faça a conta com os seus dadosCalculadora de Bitola de Fio→Fontes e referências
- ABNT NBR 5410:2004 – Instalações elétricas de baixa tensão capacidade de condução de corrente, fatores de agrupamento e temperatura, seção mínima de circuitos de força e previsão de cargas em cozinhas
- ABNT NBR NM 247-3 – Cabos isolados com policloreto de vinila (PVC) para tensões nominais até 450/750 V marcações impressas na isolação e temperatura máxima do condutor
- IEC 60364-5-52 – Selection and erection of electrical equipment: wiring systems método B1 e fatores de correção que deram origem às tabelas brasileiras
- Inmetro – Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia certificação compulsória de fios e cabos elétricos
- Calculadora de bitola de fio do SizeBench capacidade, disjuntor e queda de tensão com os seus dados
Como fizemos este guia
Todos os números deste guia são calculados pelo mesmo código das nossas calculadoras, a partir das normas listadas acima, e a página é testada antes de ser publicada. A Equipe SizeBench pesquisou, escreveu e revisou o texto; usamos automação e IA para ajudar na redação, nunca para gerar os números. Nossa metodologia →
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