O caso: 40 km por dia, carro com eficiência de 5,5 km/kWh, 10 horas por noite na garagem. Cabo portátil de recarga (o "carregador de emergência" que acompanha o carro), com corrente ajustável.
Resposta curta: a rodagem pede cerca de 8,0 kWh por dia. Em 220 V a 8 A, a tomada repõe isso em 5 h 03 min; em 127 V a 8 A, em 8 h 45 min. Cabe na noite. É seguro se a tomada estiver num circuito exclusivo, com DR de 30 mA, em bom estado, e o cabo estiver ajustado para no máximo 80% da corrente da tomada.
1. Quanta energia o carro precisa por dia
A calculadora parte da rodagem e soma 10% de perdas de recarga:
Energia diária = 40 km ÷ 5,5 km/kWh × 1,1 = 8,0 kWh
Com 10 horas disponíveis e 90% de eficiência, a potência mínima é:
8,0 kWh ÷ 10 h ÷ 0,9 = 0,89 kW
Com a folga de 50% que a calculadora recomenda, 1,33 kW. Qualquer tomada de 220 V passa disso; em 127 V, a 10 A, também. Por isso a calculadora responde que "até a tomada comum resolve".
2. Quanto a tomada entrega
A potência é tensão × corrente. O cabo portátil deixa escolher a corrente; a tomada e a tensão da casa definem o teto:
| Configuração | Potência | Horas para 8,0 kWh | km por hora |
|---|---|---|---|
| 127 V · 8 A | 1,02 kW | 8 h 45 min | 5 km |
| 127 V · 10 A | 1,27 kW | 7 h 00 min | 6 km |
| 220 V · 8 A | 1,76 kW | 5 h 03 min | 8 km |
| 220 V · 10 A | 2,20 kW | 4 h 02 min | 10 km |
| 220 V · 16 A (tomada de 20 A) | 3,52 kW | 2 h 32 min | 16 km |
Para quem roda 40 km, até o pior caso, 127 V a 8 A, fecha a conta com folga. O problema não é o tempo, é a tomada.
3. Por que 8 A numa tomada de 10 A
A NBR 14136 define tomadas de 10 A e 20 A. O valor é o máximo que o contato aguenta, mas pense no uso típico: um secador puxa 10 A por dez minutos; o carro puxa a mesma corrente por cinco, oito, dez horas. Qualquer contato um pouco frouxo, oxidado ou com plugue mal encaixado vira um ponto quente, e o calor se acumula com o tempo.
A regra prática dos fabricantes de cabos portáteis é trabalhar a no máximo 80% da corrente da tomada: 8 A numa tomada de 10 A, 16 A numa de 20 A. A diferença de tempo é pequena: em 220 V, de 4 h 02 min para 5 h 03 min.
4. O circuito importa mais que a tomada
Tomadas de uso geral costumam estar em circuitos de 2,5 mm² compartilhados com outras tomadas, às vezes com a da lavadora ou do micro-ondas. Somando o carro a 10 A com um micro-ondas, a corrente passa do disjuntor de 16 ou 20 A, e ele desarma no meio da noite. Pior: se o disjuntor for maior do que o cabo aguenta (situação comum em instalações antigas), ele não desarma, e o cabo esquenta.
A NBR 17019, que trata da recarga de veículos, pede circuito exclusivo para o ponto de recarga e DR de 30 mA. Para uma tomada de recarga em 127 V, 16 A, a 20 m do quadro:
| Tensão | Corrente | Cabo pela calculadora | Disjuntor | Queda |
|---|---|---|---|---|
| 127 V | 16 A | 4 mm² | 16 A | 2,83% |
| 220 V | 16 A | 2,5 mm² | 16 A | 2,62% |
Em 127 V a queda pesa mais: o 2,5 mm² atende até cerca de 18 m; com 4 mm² a queda nos 20 m cai para 2,83%.
5. Quanto rende uma noite inteira
Virando a conta ao contrário: se o carro ficar as 10 horas ligado, quantos quilômetros a tomada devolve? É a melhor forma de saber se a tomada aguenta a sua rotina, e não só a do caso.
Mesmo a configuração mais fraca, 127 V a 8 A, devolve mais que os 40 km diários. Quem roda bem mais que isso todos os dias, ou chega tarde e sai cedo, é que precisa de mais potência.
6. 127 V ou 220 V: vale mudar?
Na mesma corrente, 220 V entrega 1,73 vezes a potência de 127 V, e a queda de tensão no cabo pesa proporcionalmente menos. Se a casa já tem 220 V no quadro (duas fases, ou fase e neutro em regiões 220/380 V), puxar o circuito de recarga em 220 V é a escolha natural, e o cabo pode ser o mesmo de 2,5 mm².
Se a casa só tem 127 V, a tomada continua viável para rodagens como a do caso. Mudar o tipo de ligação com a distribuidora só faz sentido quando a rodagem exigir mais potência do que a noite permite.
7. O que a caixinha do cabo faz (e o que não faz)
O cabo portátil é o "modo 2" da IEC 61851-1: tem no meio uma caixa de controle e proteção (o IC-CPD da IEC 62752). Ela conversa com o carro, limita a corrente, verifica o terra e desliga se detectar fuga. Ela não protege a instalação da casa: não sabe se o cabo da parede é de 1,5 mm², se o disjuntor é de 32 A ou se a tomada está derretendo por dentro. Essa parte é do circuito.
8. Como ler as marcações
- Na tomada: "10 A" ou "20 A" gravado no corpo, e o diâmetro dos furos (os pinos de 20 A são mais grossos e não entram na de 10 A).
- No plugue do cabo: a mesma marcação. Plugue de 20 A não deve ser adaptado para tomada de 10 A.
- Na caixa do cabo: tensão (127/220 V ou só 220 V), correntes selecionáveis e o símbolo de proteção contra fuga.
- No disjuntor do circuito: corrente nominal; ela deve combinar com a seção do cabo.
9. Checklist antes de deixar o carro ligado a noite toda
- Tomada com terra ligado de verdade (teste com um testador de tomada).
- Circuito exclusivo, com DR de 30 mA.
- Tomada firme na parede, sem folga, sem marcas escuras.
- Cabo ajustado para 8 A (tomada de 10 A) ou 16 A (tomada de 20 A).
- Nada de extensão, benjamim ou adaptador.
- Depois da primeira hora, toque no plugue: morno é aceitável, quente não.
10. Sinais de problema
- Plugue ou tomada quentes ao toque, ou cheiro de plástico.
- Plástico da tomada amarelado ou deformado.
- O cabo de recarga interrompe sozinho e acusa falha de terra ou de temperatura.
- O disjuntor do circuito desarma depois de algumas horas de recarga.
11. Erros comuns
- Extensão até a garagem. Ela é feita para uso eventual; com horas de 8 a 16 A, os contatos intermediários esquentam.
- Adaptador de 20 A para 10 A. Ele permite que o cabo puxe 16 A de uma tomada de 10 A.
- Usar a tomada da lavanderia, que divide circuito com lavadora e secadora.
- Achar que o cabo "protege tudo": ele protege o carro e o usuário, não a fiação da parede.
12. Perguntas frequentes
Quanto o carro recebe numa semana só na tomada? Repondo 8,0 kWh por dia útil, cerca de 48 kWh em seis dias, sem precisar de wallbox.
E se eu rodar 100 km num dia? São 20,0 kWh: 12 h 38 min em 220 V a 8 A, mais do que a noite de 10 horas. A 16 A, numa tomada de 20 A, 6 h 19 min. Um dia assim de vez em quando se compensa no fim de semana.
A tomada de 20 A resolve tudo? Só se o circuito for dimensionado para ela: cabo de pelo menos 2,5 mm² em distâncias curtas, disjuntor de 16 A e DR.
Posso usar 127 V? Pode. A 8 A são 1,02 kW, suficientes para os 40 km do caso em 8 h 45 min.
Quando o wallbox passa a valer a pena? Quando a rodagem diária não cabe na noite, quando dois carros dividem a garagem ou quando você precisa encher a bateria rápido com frequência.
13. Resumo do caso
| Item | Resultado |
|---|---|
| Energia diária | 8,0 kWh |
| Potência mínima (10 h) | 0,89 kW |
| 220 V a 8 A | 5 h 03 min por noite |
| 127 V a 8 A | 8 h 45 min por noite |
| Condição de segurança | Circuito exclusivo, DR 30 mA, 80% da corrente da tomada |
Para outra rodagem ou outro horário em casa, use a calculadora de wallbox com os seus dados. A instalação do circuito deve ser feita por eletricista habilitado.
Faça a conta com os seus dadosQual Wallbox Instalar em Casa?→Fontes e referências
- ABNT NBR 14136 – Plugues e tomadas para uso doméstico e análogo correntes nominais de 10 A e 20 A do padrão brasileiro de plugues e tomadas
- ABNT NBR 5410:2004 – Instalações elétricas de baixa tensão circuitos de tomadas, coordenação entre disjuntor e cabo, limite de 4% de queda de tensão
- ABNT NBR 17019 – Instalações elétricas de baixa tensão: alimentação de veículos elétricos circuito exclusivo e proteção diferencial de 30 mA para pontos de recarga
- IEC 62752 – In-cable control and protection device for mode 2 charging of electric road vehicles (IC-CPD) funções de controle e proteção da caixinha do cabo portátil de recarga
- IEC 61851-1 – Electric vehicle conductive charging system: General requirements definição do modo 2 de recarga, em tomada comum com cabo de controle
- Calculadora de wallbox do SizeBench mesma conta de energia diária e potência mínima usada neste guia
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