Caso real · Elétrica

Disjuntor geral para casa com 15 kW de carga instalada

Somando a etiqueta de todos os aparelhos, a casa chega a 15 kW. Isso não quer dizer que o disjuntor geral precise aguentar 15 kW. Mostramos como chegar à demanda real, sem inventar tabela de distribuidora.

Disjuntor geral para casa com 15 kW de carga instalada

O caso: casa com 15 kW de carga instalada — chuveiro de 7500 W, dois aparelhos de ar-condicionado, micro-ondas, máquina de lavar, iluminação e tomadas. Alimentação 127/220 V. Qual disjuntor geral colocar no quadro de distribuição?

Resposta curta: a demanda realista fica em 11,5 kW (77% da carga instalada). Em ligação bifásica isso dá 52,3 A e disjuntor geral bipolar de 63 A, com alimentador de 16 mm². Em trifásica, com as cargas bem distribuídas, a fase mais carregada fica em 39,1 A e o geral tripolar cai para 40 A.

Medidores de energia lado a lado em uma parede
Figura 1. O padrão de entrada e o disjuntor dele seguem a norma da distribuidora; o disjuntor geral do quadro precisa conversar com ele. Foto: Tim Mossholder / Unsplash

1. Carga instalada não é demanda

Carga instalada é a soma das potências de placa de tudo o que a casa tem. Demanda é o que de fato funciona ao mesmo tempo no pior momento do dia. Ninguém toma banho, passa roupa, liga o forno, o micro-ondas e os dois ares ao mesmo tempo, todos os dias.

Carga Potência
Chuveiro 7.500 W
Ar-condicionado (2 ×) 2.200 W
Tomadas gerais 2.200 W
Micro-ondas 1.300 W
Máquina de lavar 1.000 W
Iluminação 800 W
Total instalado 15.000 W

Se o disjuntor geral fosse escolhido por esse total, a conta daria 68,2 A em 220 V e um disjuntor de 70 A. É superdimensionado: cabo mais grosso, padrão de categoria acima do necessário e, pior, um disjuntor geral que nunca protege o alimentador de verdade se alguém economizar no cabo.

2. Fator de demanda: de onde ele vem

As distribuidoras publicam, nas suas normas de fornecimento em baixa tensão, tabelas de fatores de demanda por tipo de carga (iluminação e tomadas, chuveiros, aparelhos de ar, motores) e as faixas de cada categoria de ligação. Essas tabelas mudam de uma distribuidora para outra, e não vamos reproduzir nenhuma aqui: para o padrão de entrada, vale a da sua concessionária.

Para o quadro interno, um método transparente é montar os cenários de uso simultâneo da própria família e ficar com o pior. Nossas hipóteses:

  • Noite de inverno (19 h): chuveiro + iluminação toda + micro-ondas + 1.000 W de tomadas = 10.600 W.
  • Noite de verão (22 h): chuveiro + os dois ares + iluminação + 1.000 W de tomadas = 11.500 W.

O pior cenário é o de verão: 11.500 W, ou 77% da carga instalada. A máquina de lavar e o restante das tomadas ficam fora porque a família não lava roupa durante o banho da noite. Se na sua casa isso acontece, entre com ela.

Tudo ligado68,2 AVerão 22 h52,3 AInverno 19 h48,2 A
Figura 2. Corrente em 220 V para a carga instalada inteira e para os dois cenários de uso simultâneo. O disjuntor geral é escolhido pelo pior cenário realista.

3. Disjuntor geral em ligação bifásica

Com a demanda de 11.500 W em 220 V:

I = 11.500 ÷ 220 = 52,3 A

O próximo valor padronizado é 63 A. Mas a conta "potência ÷ 220" esconde uma coisa: as cargas de 127 V ficam penduradas em uma fase só. Distribuindo a iluminação na fase A e as tomadas na fase B, cada fase carrega:

Fase Chuveiro Ares 127 V Total
A 34,1 A 10,0 A 6,3 A 50,4 A
B 34,1 A 10,0 A 7,9 A 52,0 A

Nenhuma passa de 63 A. O disjuntor bipolar de 63 A atende, desde que o alimentador aguente: pela capacidade de condução (método B1), o cabo mínimo para 63 A é de 16 mm².

Padrão63 A16 mm²10 mQDC · 11,5 kW127/220 V · 2 fasesQueda de tensão 0,67 %
Figura 3. Alimentador do padrão de entrada até o quadro, 10 m: disjuntor de 63 A e cabo de 16 mm². A queda fica em 0,67 %, folga para os circuitos terminais.
Vários disjuntores montados em um quadro com fiação
Figura 4. O disjuntor geral fica à frente de todos os circuitos e é escolhido pela demanda, não pela soma das etiquetas. Foto: Troy Bridges / Unsplash

4. O que muda em ligação trifásica

Com três fases (127/220 V), as cargas de 220 V se espalham por pares diferentes. Uma distribuição possível: chuveiro entre A e B, um ar entre B e C, outro entre C e A, iluminação e tomadas na fase C, em 127 V. Somando as correntes de linha de forma conservadora (soma aritmética, sem considerar a defasagem):

Fase Composição Corrente
A chuveiro + 1 ar 39,1 A
B chuveiro + 1 ar 39,1 A
C 2 ares + iluminação + tomadas 24,2 A
Fase A39,1 AFase B39,1 AFase C24,2 A
Figura 5. Corrente por fase na ligação trifásica. O chuveiro, sozinho, já define o piso de duas fases; equilibrar o resto evita que uma delas estoure.

A fase mais carregada fica em 39,1 A e o disjuntor geral tripolar pode ser de 40 A, com cabo de 10 mm² (capacidade com três condutores carregados). A calculadora, que supõe carga perfeitamente equilibrada, daria 30,2 A; a conta por fase é mais honesta quando há um chuveiro grande na casa.

5. Comparação rápida

Ligação Corrente de projeto Disjuntor geral Cabo mínimo pela capacidade
Bifásica, tudo ligado 68,2 A 70 A 16 mm²
Bifásica, demanda 52,3 A 63 A 16 mm²
Trifásica, demanda 39,1 A (fase mais carregada) 40 A 10 mm²

Distância do padrão até o quadro

A tabela acima olha só a capacidade de condução. Quando o padrão de entrada fica no muro e o quadro no fundo da casa, o comprimento do alimentador também pesa. Como o alimentador é só o começo do caminho, adotamos aqui um teto de 2 % de queda para ele, deixando o restante da margem dos 4 % para os circuitos terminais. Mesma demanda de 11.500 W em bifásico:

Distância padrão → quadro Cabo do alimentador Queda de tensão
10 m 16 mm² 0,67 %
25 m 16 mm² 1,67 %
40 m 25 mm² 1,71 %

Até uns 25 m, o cabo escolhido pela corrente já resolve a queda. Acima disso, é a queda de tensão que manda subir a seção, mesmo com o disjuntor geral continuando em 63 A.

6. Como o geral se encaixa com o padrão de entrada

São dois disjuntores diferentes:

  1. Disjuntor do padrão, junto ao medidor. Quem define o valor é a norma da distribuidora, pela categoria de ligação. Mexer nele sem autorização é proibido.
  2. Disjuntor geral do quadro, dentro de casa. Esse é o que este guia dimensiona. Ele deve ser igual ou menor que o do padrão e menor ou igual à capacidade do alimentador.

Se o padrão for de 50 A e a conta pedir 63 A, não adianta subir o geral: o padrão desarma primeiro. O caminho é pedir aumento de carga à distribuidora, passar para trifásico ou rever os cenários (por exemplo, intertravar o chuveiro com um dos ares).

7. Checklist antes de fechar o quadro

  • Liste as cargas com a potência de placa, não a do anúncio.
  • Monte pelo menos dois cenários de uso simultâneo (inverno e verão).
  • Some por fase, não só pela potência total.
  • Confira se o geral fica entre a corrente de projeto e a capacidade do alimentador.
  • Confira se o geral não passa do disjuntor do padrão.
  • Deixe anotado, na tampa do quadro, a demanda adotada e a data.

8. Sinais de que o geral está pequeno (ou a demanda cresceu)

  • O geral desarma em noites de calor, com chuveiro e ares ligados, mas os disjuntores dos circuitos não.
  • O geral aquece mais que os outros ao toque.
  • As lâmpadas variam de brilho quando o chuveiro entra.
  • Houve acréscimo de carga (forno, cooktop, carregador de carro elétrico) sem revisão do alimentador.

9. Erros comuns

  • Somar as etiquetas e comprar o disjuntor pelo total. Gasta-se mais e o alimentador costuma não acompanhar.
  • Usar fator de demanda "de internet". A tabela da sua distribuidora é a que vale para o padrão; para o quadro, use cenários reais.
  • Pôr todos os circuitos de 127 V na mesma fase. A conta global fecha, mas uma fase sobrecarrega.
  • Trocar o geral por um maior porque está desarmando. Ele está avisando que a demanda passou do projeto.

10. Perguntas frequentes

Com 15 kW instalados, preciso de padrão trifásico? Depende da norma da sua distribuidora, que define as faixas de cada categoria. Pela conta de demanda, a casa fica em 11,5 kW e funciona nas duas ligações; a trifásica dá disjuntor menor (40 A contra 63 A).

Se eu tirar um ar-condicionado, quanto muda? O cenário de verão cai para 10.400 W, ou 47,3 A em bifásico. O disjuntor continua de 50 A.

E se trocar o chuveiro por um aquecimento a gás? A demanda de verão vai para 4.000 W: 18,2 A, disjuntor de 20 A. O chuveiro é, de longe, a carga que define o geral.

E se eu instalar um carregador de carro elétrico de 7,4 kW? Ele trabalha horas seguidas à noite e entra inteiro na demanda. O cenário de verão sobe para 18.900 W, 85,9 A em bifásico e disjuntor geral de 100 A, com alimentador de pelo menos 25 mm². Na prática, isso costuma exigir pedido de aumento de carga ou ligação trifásica; outra saída é programar a recarga para depois do banho.

O geral precisa ser DR? Não necessariamente. O DR pode ficar no geral ou em grupos de circuitos; o que a norma exige é a proteção de 30 mA nos circuitos de áreas molhadas e tomadas externas.

11. Resumo do caso

Item Resultado
Carga instalada 15.000 W
Demanda adotada 11.500 W (77%)
Geral bifásico 63 A, cabo 16 mm²
Geral trifásico 40 A, cabo 10 mm²
Limite não passar do disjuntor do padrão

Para testar outros cenários de demanda, use a calculadora com os seus números. O projeto e a ligação devem ser feitos por profissional habilitado, e o padrão segue sempre a norma da distribuidora.

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Fontes e referências

  1. ABNT NBR 5410:2004 – Instalações elétricas de baixa tensão coordenação entre corrente de projeto, disjuntor e capacidade do cabo; divisão equilibrada das cargas entre fases
  2. ANEEL – Resolução Normativa nº 1.000/2021 regras gerais de conexão e de atendimento das distribuidoras, que remetem às normas técnicas de cada uma
  3. IEC 60898-1 – Circuit-breakers for overcurrent protection for household and similar installations correntes nominais padronizadas e marcações do disjuntor
  4. Calculadora de disjuntor do SizeBench corrente e disjuntor a partir da potência de demanda

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