O caso: van com bateria de 12 V, geladeira doméstica de duas portas em 127 V que consome 150 W com o compressor rodando, mais cerca de 100 W de TV, carregadores e iluminação no lado de 127 V. O inversor fica a 1,5 m da bateria.
Resposta curta: o inversor de 500 W só funciona se aguentar o dobro da potência nominal na partida. Para não depender disso, use um inversor de onda senoidal pura de 1000 W, protegido por fusível de 125 A junto à bateria e ligado com cabo de 35 mm².
1. Por que a partida manda no tamanho do inversor
O compressor da geladeira é um motor. Parado, ele precisa de um tranco para vencer a pressão do gás e começar a girar: durante uma fração de segundo, puxa várias vezes a corrente de funcionamento. Neste guia supomos 6 vezes a potência de regime, um valor comum para compressores de geladeira doméstica. Se você tiver um alicate amperímetro com função de pico (inrush), meça: é o dado que vale.
| Item | Potência |
|---|---|
| Geladeira rodando | 150 W |
| Outras cargas de 127 V | 100 W |
| Total contínuo | 250 W |
| Pico extra na partida do compressor | 750 W |
| Pico total | 1000 W |
O pico dura pouco, mas o inversor precisa entregá-lo sem desligar por sobrecarga. Se não entregar, a geladeira tenta partir, o inversor apita e corta, e o ciclo se repete até alguém desligar tudo.
2. A conta do inversor
A regra da calculadora tem duas condições, e vale a mais exigente:
- Potência contínua ≥ carga × 1,25 (25% de folga): 250 × 1,25 = 312 W.
- Potência contínua ≥ metade do pico, supondo que o inversor aguente o dobro da nominal por alguns segundos: 1000 ÷ 2 = 500 W.
O maior valor é 500 W, e o próximo tamanho comercial é 500 W. É exatamente o inversor do kit.
O problema está na suposição do "dobro". Muitos inversores informam um pico de apenas 1,5 vez a nominal, ou um pico que dura só milissegundos. Refazendo a conta com 1,5 vez:
1000 ÷ 1,5 = 667 W → inversor de 1000 W
| Capacidade de pico do inversor | Potência contínua mínima | Tamanho comercial |
|---|---|---|
| 2 × nominal | 500 W | 500 W |
| 1,5 × nominal | 667 W | 1000 W |
A recomendação deste caso é o de 1000 W: ele dá conta da partida mesmo que o pico real do modelo seja modesto, e ainda sobra para ligar um liquidificador ou um secador pequeno com a geladeira parada.
3. Onda senoidal pura ou modificada?
Para geladeira, senoidal pura. O inversor de onda modificada (a "quadrada em degraus") até faz muitos compressores girarem, mas o motor aquece mais, faz ruído e a corrente de partida tende a ser maior, justamente o que já está apertado. O termostato eletrônico e a placa de algumas geladeiras frost free também não gostam dessa forma de onda.
4. Corrente na bateria de 12 V
Do lado de 12 V, a mesma potência vira uma corrente grande. Considerando 90% de rendimento do inversor:
| Situação | Potência | Corrente na bateria |
|---|---|---|
| Carga contínua do caso | 250 W | 23,1 A |
| Partida do compressor | 1000 W | 92,6 A |
| Inversor a plena carga | 1000 W | 92,6 A |
Repare: por meio segundo, a partida da geladeira tira 93 A da bateria. Bateria fraca, cabo fino ou borne frouxo derrubam a tensão nesse instante, o inversor lê "bateria baixa" e desliga, mesmo com potência de sobra no papel.
5. Fusível e cabo: dimensione pelo inversor, não pela geladeira
O cabo entre bateria e inversor tem de suportar o que o inversor pode puxar, porque amanhã alguém vai ligar outra coisa nele. A corrente a plena carga é 92,6 A; com 25% de folga, 116 A, e o fusível comercial seguinte é de 125 A. O cabo precisa conduzir pelo menos isso. Usando como referência conservadora a capacidade do método B1 da NBR 5410 (cobre, PVC), a menor seção que passa é 35 mm².
Em 12 V, a queda de tensão pesa muito mais do que em 127 V: 1 V perdido já é mais de 8%. Com 1,5 m de distância (ida e volta = 3 m de cabo) e 93 A:
| Seção | Queda | Queda em % de 12 V |
|---|---|---|
| 16 mm² | 0,39 V | 3,3% |
| 25 mm² | 0,25 V | 2,1% |
| 35 mm² | 0,18 V | 1,5% |
A lição prática: leve o 127 V até a geladeira, não o 12 V até o inversor. Um cabo de 127 V de 2,5 mm² atravessa a van com perda desprezível; o cabo de 12 V tem de ser curto e grosso.
6. Quanto tempo a bateria segura a geladeira
Uma geladeira com etiqueta do Inmetro de 30 kWh/mês consome em média 41,7 W, porque o compressor passa boa parte do tempo desligado. Somamos 12 W de consumo em vazio do inversor (confira no manual do seu, o valor varia bastante) e usamos 90% de rendimento:
Horas = Ah × 12 V × profundidade de descarga × 0,9 ÷ 53,7 W
| Bateria | Chumbo-ácido (50%) | Lítio LiFePO4 (90%) |
|---|---|---|
| 100 Ah | 10 h | 18 h |
| 150 Ah | 15 h | 27 h |
| 200 Ah | 20 h | 36 h |
| 300 Ah | 30 h | 54 h |
Por dia, o conjunto tira da bateria cerca de 1.431 Wh, ou 119 Ah em 12 V. Esse é o número que o alternador ou os painéis solares precisam repor para a viagem não terminar com bateria vazia. Desligar o inversor à noite não é opção com geladeira; escolher um modelo com baixo consumo em vazio ajuda mais do que parece: 12 W o dia todo somam 288 Wh.
7. Como ler a etiqueta do inversor e da geladeira
No inversor:
- Potência contínua (rated ou continuous): é o número que entra na conta. Desconfie de caixas que destacam só o pico.
- Potência de pico (surge ou peak) e por quanto tempo: "2000 W por 0,5 s" é diferente de "2000 W por 5 s".
- Forma de onda: pure sine wave (senoidal pura) ou modified sine wave.
- Tensão de entrada: 12 V ou 24 V. Não existe adaptação: o inversor de 24 V não liga em 12 V.
- Consumo em vazio (no-load current), em ampères ou watts.
- Corte por subtensão: em geral entre 10 e 11 V; é o que desliga a geladeira quando a bateria cai.
Na geladeira: tensão (127 V ou 220 V), potência nominal e o consumo em kWh/mês da etiqueta do Inmetro. A potência nominal da placa às vezes inclui a resistência de degelo, que liga por alguns minutos e é maior que a do compressor; some essa resistência às outras cargas se ela puder coincidir com uma partida.
8. Checklist de instalação
- Fusível (ou disjuntor CC) a no máximo poucos centímetros do polo positivo da bateria.
- Cabos com terminais prensados, não soldados nem "na mão", e porcas apertadas no torque do fabricante.
- Inversor em local ventilado, longe de gás e da bateria de chumbo aberta (que libera hidrogênio na carga).
- Chave geral CC para isolar a bateria em manutenção.
- Aterramento do chassi do inversor conforme o manual.
- Teste com a geladeira quente: é quando a partida é mais pesada.
9. Sinais de que o conjunto está no limite
- O inversor apita ou desarma no exato momento em que o compressor tenta ligar.
- As luzes de 12 V piscam a cada partida da geladeira.
- O borne da bateria ou o terminal do cabo esquenta.
- O inversor corta por "bateria baixa" com a bateria ainda acima de 12 V em repouso.
10. Erros comuns
- Comprar pelo pico da caixa. O número grande na embalagem quase sempre é o pico; a potência contínua costuma ser metade.
- Cabo de 12 V longo para deixar o inversor ao lado da geladeira.
- Fusível dimensionado pela geladeira. Ele protege o cabo; deve combinar com o cabo e com o inversor.
- Bateria de partida do motor alimentando a geladeira: descargas profundas encurtam muito a vida dela. Use uma bateria de serviço separada.
11. Perguntas frequentes
Posso usar um inversor de 24 V para reduzir a corrente? Sim, se o banco de baterias for de 24 V. O mesmo inversor de 1000 W puxaria 46,3 A em vez de 92,6 A, e o cabo poderia ser bem mais fino.
E se a geladeira tiver compressor inverter? A partida é suave e o pico cai muito. A conta pela regra de 25% de folga (312 W) passa a mandar, e um inversor de 500 W costuma bastar.
A bateria de 100 Ah de chumbo segura uma noite? Pela tabela, cerca de 10 horas, sem nenhuma outra carga. Dá uma noite, mas não um fim de semana parado.
Preciso de fusível também no lado de 127 V? Sim. Use uma tomada com disjuntor ou um protetor na saída do inversor para proteger o cabo que vai até a geladeira.
Uma geladeira 12 V nativa não seria melhor? Para uso só em viagem, muitas vezes sim: o compressor de corrente contínua dispensa o inversor e o consumo em vazio dele. A geladeira doméstica faz sentido quando já existe e o espaço permite.
12. Resumo do caso
| Item | Resultado |
|---|---|
| Carga contínua | 250 W |
| Pico de partida | 1000 W |
| Inversor | 1000 W, senoidal pura |
| Corrente a plena carga | 92,6 A em 12 V |
| Fusível | 125 A junto à bateria |
| Cabo bateria–inversor | 35 mm², até 1,5 m |
| Autonomia com 200 Ah lítio | cerca de 36 h |
Para testar outra geladeira, outra carga ou um banco de 24 V, use a calculadora de inversor com os seus números.
Faça a conta com os seus dadosCalculadora de Inversor→Fontes e referências
- Inmetro – Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE) consumo mensal em kWh da etiqueta ENCE de refrigeradores, usado para estimar o consumo médio da geladeira
- IEC 60335-2-24 – Particular requirements for refrigerating appliances, ice-cream appliances and ice makers requisitos de segurança dos refrigeradores com compressor, cuja partida dimensiona o inversor
- ISO 8820-1 – Road vehicles: Fuse-links – Definitions and general test requirements fusíveis para circuitos de corrente contínua em veículos, como o que protege o cabo bateria–inversor
- IEC 62619 – Secondary lithium cells and batteries for use in industrial applications requisitos de segurança das baterias de lítio (LiFePO4) usadas em motorhomes
- Calculadora de inversor do SizeBench a mesma regra de potência contínua, pico e corrente na bateria usada neste guia
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