Caso real · Elétrica

Casa a 60 m do padrão de entrada: qual cabo usar?

Num terreno comprido, o medidor ficou no muro da rua e a casa foi construída lá no fundo, a 60 m. O cabo que sai do padrão e chega ao quadro precisa ser escolhido pela queda de tensão, e a conta surpreende quem só olha a tabela de corrente.

Casa a 60 m do padrão de entrada: qual cabo usar?

O caso: casa com ligação bifásica 127/220 V, demanda estimada de 11 kW, medidor e disjuntor geral no padrão de entrada junto ao muro da rua e quadro de distribuição dentro da casa, a 60 m de cabo. Condutores de cobre com isolação de PVC em eletroduto (método B1 da NBR 5410).

Resposta curta: a corrente pede só 16 mm², mas para deixar margem de queda de tensão aos circuitos internos o alimentador deve ser de 35 mm² por fase, protegido por disjuntor de 50 A. Nesse cabo a queda nos 60 m fica em 1,75 %.

Casa de telhado vermelho entre árvores, com uma linha de energia ao fundo
Figura 1. Em terrenos longos a casa fica longe do ponto onde a distribuidora entrega a energia, e o trecho até o quadro passa a contar na queda de tensão. Foto: Adhitya Sibikumar / Unsplash
Padrão50 A35 mm²60 mQuadro da casa127/220 V · 2 fasesQueda de tensão 1,75 %
Figura 2. O alimentador do caso: disjuntor de 50 A no padrão de entrada e 60 m de cabo de 35 mm² até o quadro da casa.

1. A corrente de projeto do alimentador

O alimentador é o cabo que leva toda a energia da casa do padrão até o quadro. Ele não é dimensionado pela soma de tudo o que está instalado, e sim pela demanda: a potência que realmente aparece ao mesmo tempo, depois de aplicados os fatores de demanda da distribuidora. Neste exemplo a demanda calculada foi de 11 kW.

Para a conta usamos o modelo mais conservador, como se toda a carga estivesse ligada entre as duas fases em 220 V:

I = 11 000 ÷ 220 = 50,0 A

Com as cargas de 127 V bem distribuídas entre as duas fases, a corrente por fase seria um pouco menor e a queda também. Partir do cenário pior dá folga para o dia em que a distribuição não estiver equilibrada.

2. O que a capacidade de corrente sozinha diria

Pela tabela da NBR 5410 (cobre, PVC, método B1, dois condutores carregados), o cabo de 10 mm² conduz 57 A e aceitaria um disjuntor de 50 A. Se a casa estivesse a 10 m do padrão, a conversa terminaria aqui.

A 60 m, porém, esse mesmo cabo perderia 13,5 V, o equivalente a 6,14 %, antes de a energia chegar ao quadro. É mais do que todo o orçamento de queda que a norma admite para a instalação inteira.

3. O orçamento de queda de tensão

A NBR 5410 trata a queda de tensão como um orçamento que começa no ponto de entrega. Para quem recebe energia da rede de baixa tensão da distribuidora, o total entre o ponto de entrega e qualquer ponto de utilização não deve passar de 5 %. Dentro disso, nenhum circuito terminal pode ter mais de 4 %.

Na prática, isso significa dividir os 5 % entre dois trechos:

  • o alimentador (padrão até o quadro), que é um só e serve à casa inteira;
  • o circuito terminal mais desfavorável (quadro até a tomada, o chuveiro ou o ar-condicionado mais distante).

Se o alimentador gastar 2 %, sobram 3 % para cada circuito terminal. Se ele gastar 4 %, sobra 1 %, e aí até o circuito do chuveiro, que costuma ser curto, fica difícil de fechar. Por isso adotamos 2 % como meta do alimentador.

4. A conta para 60 m

Para circuito monofásico a dois condutores (ida e volta):

ΔV = 2 × L × I × ρ ÷ S, com ρ = 0,0225 Ω·mm²/m para o cobre em temperatura de serviço.

Seção Queda em volts Queda em % Cabe na meta de 2 %?
10 mm² 13,5 V 6,14 % Não
16 mm² 8,4 V 3,84 % Não
25 mm² 5,4 V 2,45 % Não
35 mm² 3,9 V 1,75 % Sim
50 mm² 2,7 V 1,23 % Sim, com folga
0,02,44,87,29,612,0020406080100Comprimento do alimentador (m)Queda (%)60 m10 mm²16 mm²25 mm²35 mm²meta de 2 %
Figura 3. Queda de tensão do alimentador de 50 A conforme a seção e o comprimento. Aos 60 m do caso, só o cabo de 35 mm² fica abaixo da meta de 2 %.

O cabo de 35 mm² é o primeiro que atende. O de 25 mm² passaria na regra geral dos 5 %, mas deixaria apenas 2,55 % para os circuitos internos.

Medidor de energia preto e branco instalado em parede externa
Figura 4. O medidor marca o ponto de partida da conta: a partir dele, toda a queda de tensão até as tomadas é responsabilidade da instalação do morador. Foto: Jon Moore / Unsplash

5. Quanto a escolha da meta muda o cabo

A meta de queda do alimentador é uma decisão de projeto. Ela troca seção de cabo por margem para os circuitos da casa:

Meta do alimentador Seção mínima Queda real Sobra para os circuitos terminais
1 % 70 mm² 0,88 % 4,12 %
2 % 35 mm² 1,75 % 3,25 %
3 % 25 mm² 2,45 % 2,55 %
4 % 16 mm² 3,84 % 1,16 %
Meta 1 %70 mm² mm²Meta 2 %35 mm² mm²Meta 3 %25 mm² mm²Meta 4 %16 mm² mm²
Figura 5. Seção de cobre do alimentador de 60 m para cada meta de queda. Cada ponto percentual economizado no alimentador custa várias bitolas.

Com 16 mm², sobrariam só 1,16 % para o circuito terminal mais longo. Isso pode servir numa casa compacta, em que todos os pontos ficam a poucos metros do quadro, mas raramente funciona numa casa térrea grande.

6. A mesma demanda em outras distâncias

Distância padrão–quadro Seção (meta 2 %) Queda
20 m 16 mm² 1,28 %
40 m 25 mm² 1,64 %
60 m 35 mm² 1,75 %
80 m 50 mm² 1,64 %
100 m 70 mm² 1,46 %

Repare que a seção cresce quase na proporção do comprimento: dobrar a distância exige praticamente dobrar a área de cobre para manter a mesma queda.

7. Alternativas que reduzem o cabo

Ligação trifásica. Com três fases 127/220 V, a mesma demanda se divide e a corrente por fase cai para 28,9 A. O alimentador de 60 m passa a ser de 16 mm² com disjuntor de 32 A e queda de 1,92 %. Vale consultar a distribuidora sobre a mudança de categoria de ligação.

Ligação monofásica, nem pensar. Em 127 V, os mesmos 11 kW dariam 86,6 A e um cabo de 95 mm². É o motivo pelo qual casas com essa demanda não são atendidas em uma fase só.

Aproximar o quadro. Às vezes é possível levar o padrão para mais perto da casa, dentro das regras da distribuidora para a localização da medição. Cada metro tirado do alimentador vale mais do que qualquer aumento de bitola.

8. Condutores que acompanham as fases

  • Neutro: mantenha a mesma seção das fases. Com cargas de 127 V desequilibradas, o neutro carrega a diferença entre as fases.
  • Condutor de proteção (terra): pela NBR 5410, para fases entre 16 mm² e 35 mm², o condutor de proteção pode ser de 16 mm². No caso de 35 mm², use PE de 16 mm².
  • Eletroduto: três cabos de 35 mm² mais o terra exigem eletroduto bem maior do que o usual em residências. Verifique a taxa de ocupação antes de comprar.
  • Terminais: cabo de 35 mm² não entra em borne comum de disjuntor residencial. Use terminal de compressão e confira a capacidade do borne no catálogo.

9. Como ler o padrão e medir o percurso

No padrão, procure a corrente nominal do disjuntor geral (ela limita a demanda, não a seção do alimentador) e a categoria de ligação. No terreno, meça o percurso real do eletroduto, não a distância em linha reta: subidas de poste ou parede, curvas e a sobra dentro das caixas somam vários metros em 60 m.

10. Sintomas de alimentador subdimensionado

  • lâmpadas que perdem brilho quando liga o chuveiro, mesmo em outro cômodo;
  • tensão medida no quadro bem menor do que no padrão com a casa em uso;
  • ar-condicionado ou geladeira com dificuldade de partida nos horários de pico;
  • aquecimento nas conexões do disjuntor geral ou da entrada do quadro.

Com um multímetro, meça a tensão no padrão e no quadro com uma carga forte ligada. A diferença dividida pela tensão do padrão é a queda real do alimentador.

11. Erros comuns

  • Copiar a bitola do vizinho. Mesma demanda, outra distância, outra resposta.
  • Esquecer que a queda se soma. Um alimentador "aprovado" com 4,5 % reprova toda a casa.
  • Trocar o disjuntor geral por um maior. Ele é definido pela distribuidora e não resolve queda de tensão.
  • Emendar o alimentador no meio do caminho. Em 60 m, compre o cabo inteiro.

12. Perguntas frequentes

Posso usar 25 mm² e aceitar mais queda? Pode, desde que os circuitos internos fiquem curtos. Com 25 mm² o alimentador gasta 2,45 % e sobram 2,55 % para o circuito terminal mais distante.

O cabo de 10 mm² aguenta a corrente. Por que não serve? Porque aguenta sem esquentar, mas perde 6,14 % de tensão nos 60 m, acima do limite total da instalação.

E se a demanda for menor, de 8 kW? A corrente cai para 36,4 A e a queda com 25 mm² fica em 1,79 %, já dentro da meta de 2 %.

Até que distância o cabo de 35 mm² mantém 2 % para esta casa? Até cerca de 68 m, metade do alcance que ele teria com a meta de 4 % (137 m).

13. Resumo do caso

Item Resultado
Demanda 11 kW
Corrente de projeto 50,0 A
Disjuntor 50 A
Seção pela corrente 16 mm²
Seção adotada (meta 2 %) 35 mm²
Queda nos 60 m 1,75 %
Condutor de proteção 16 mm²

Para testar outra demanda, outra distância ou outra meta de queda, use a calculadora de bitola com os seus números. O projeto do alimentador e a ligação ao padrão devem ser feitos por profissional habilitado e seguir as normas da sua distribuidora.

Faça a conta com os seus dadosCalculadora de Bitola de Fio→

Fontes e referências

  1. ABNT NBR 5410:2004 – Instalações elétricas de baixa tensão limites de queda de tensão a partir do ponto de entrega e nos circuitos terminais, capacidade de condução e seção do condutor de proteção
  2. ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica regras de fornecimento em tensão secundária e faixas de tensão adequada no ponto de conexão (PRODIST)
  3. IEC 60364-5-52 – Selection and erection of electrical equipment: wiring systems método de queda de tensão e tabelas de capacidade que a NBR 5410 adota
  4. Calculadora de queda de tensão do SizeBench a mesma fórmula deste guia, para qualquer seção e comprimento
  5. Calculadora de bitola de fio do SizeBench seção mínima por corrente e por queda, com os seus dados

Como fizemos este guia

Todos os números deste guia são calculados pelo mesmo código das nossas calculadoras, a partir das normas listadas acima, e a página é testada antes de ser publicada. A Equipe SizeBench pesquisou, escreveu e revisou o texto; usamos automação e IA para ajudar na redação, nunca para gerar os números. Nossa metodologia →

Histórico de revisões

  • · Publicado