O caso: casa com ligação bifásica 127/220 V, demanda estimada de 11 kW, medidor e disjuntor geral no padrão de entrada junto ao muro da rua e quadro de distribuição dentro da casa, a 60 m de cabo. Condutores de cobre com isolação de PVC em eletroduto (método B1 da NBR 5410).
Resposta curta: a corrente pede só 16 mm², mas para deixar margem de queda de tensão aos circuitos internos o alimentador deve ser de 35 mm² por fase, protegido por disjuntor de 50 A. Nesse cabo a queda nos 60 m fica em 1,75 %.
1. A corrente de projeto do alimentador
O alimentador é o cabo que leva toda a energia da casa do padrão até o quadro. Ele não é dimensionado pela soma de tudo o que está instalado, e sim pela demanda: a potência que realmente aparece ao mesmo tempo, depois de aplicados os fatores de demanda da distribuidora. Neste exemplo a demanda calculada foi de 11 kW.
Para a conta usamos o modelo mais conservador, como se toda a carga estivesse ligada entre as duas fases em 220 V:
I = 11 000 ÷ 220 = 50,0 A
Com as cargas de 127 V bem distribuídas entre as duas fases, a corrente por fase seria um pouco menor e a queda também. Partir do cenário pior dá folga para o dia em que a distribuição não estiver equilibrada.
2. O que a capacidade de corrente sozinha diria
Pela tabela da NBR 5410 (cobre, PVC, método B1, dois condutores carregados), o cabo de 10 mm² conduz 57 A e aceitaria um disjuntor de 50 A. Se a casa estivesse a 10 m do padrão, a conversa terminaria aqui.
A 60 m, porém, esse mesmo cabo perderia 13,5 V, o equivalente a 6,14 %, antes de a energia chegar ao quadro. É mais do que todo o orçamento de queda que a norma admite para a instalação inteira.
3. O orçamento de queda de tensão
A NBR 5410 trata a queda de tensão como um orçamento que começa no ponto de entrega. Para quem recebe energia da rede de baixa tensão da distribuidora, o total entre o ponto de entrega e qualquer ponto de utilização não deve passar de 5 %. Dentro disso, nenhum circuito terminal pode ter mais de 4 %.
Na prática, isso significa dividir os 5 % entre dois trechos:
- o alimentador (padrão até o quadro), que é um só e serve à casa inteira;
- o circuito terminal mais desfavorável (quadro até a tomada, o chuveiro ou o ar-condicionado mais distante).
Se o alimentador gastar 2 %, sobram 3 % para cada circuito terminal. Se ele gastar 4 %, sobra 1 %, e aí até o circuito do chuveiro, que costuma ser curto, fica difícil de fechar. Por isso adotamos 2 % como meta do alimentador.
4. A conta para 60 m
Para circuito monofásico a dois condutores (ida e volta):
ΔV = 2 × L × I × ρ ÷ S, com ρ = 0,0225 Ω·mm²/m para o cobre em temperatura de serviço.
| Seção | Queda em volts | Queda em % | Cabe na meta de 2 %? |
|---|---|---|---|
| 10 mm² | 13,5 V | 6,14 % | Não |
| 16 mm² | 8,4 V | 3,84 % | Não |
| 25 mm² | 5,4 V | 2,45 % | Não |
| 35 mm² | 3,9 V | 1,75 % | Sim |
| 50 mm² | 2,7 V | 1,23 % | Sim, com folga |
O cabo de 35 mm² é o primeiro que atende. O de 25 mm² passaria na regra geral dos 5 %, mas deixaria apenas 2,55 % para os circuitos internos.
5. Quanto a escolha da meta muda o cabo
A meta de queda do alimentador é uma decisão de projeto. Ela troca seção de cabo por margem para os circuitos da casa:
| Meta do alimentador | Seção mínima | Queda real | Sobra para os circuitos terminais |
|---|---|---|---|
| 1 % | 70 mm² | 0,88 % | 4,12 % |
| 2 % | 35 mm² | 1,75 % | 3,25 % |
| 3 % | 25 mm² | 2,45 % | 2,55 % |
| 4 % | 16 mm² | 3,84 % | 1,16 % |
Com 16 mm², sobrariam só 1,16 % para o circuito terminal mais longo. Isso pode servir numa casa compacta, em que todos os pontos ficam a poucos metros do quadro, mas raramente funciona numa casa térrea grande.
6. A mesma demanda em outras distâncias
| Distância padrão–quadro | Seção (meta 2 %) | Queda |
|---|---|---|
| 20 m | 16 mm² | 1,28 % |
| 40 m | 25 mm² | 1,64 % |
| 60 m | 35 mm² | 1,75 % |
| 80 m | 50 mm² | 1,64 % |
| 100 m | 70 mm² | 1,46 % |
Repare que a seção cresce quase na proporção do comprimento: dobrar a distância exige praticamente dobrar a área de cobre para manter a mesma queda.
7. Alternativas que reduzem o cabo
Ligação trifásica. Com três fases 127/220 V, a mesma demanda se divide e a corrente por fase cai para 28,9 A. O alimentador de 60 m passa a ser de 16 mm² com disjuntor de 32 A e queda de 1,92 %. Vale consultar a distribuidora sobre a mudança de categoria de ligação.
Ligação monofásica, nem pensar. Em 127 V, os mesmos 11 kW dariam 86,6 A e um cabo de 95 mm². É o motivo pelo qual casas com essa demanda não são atendidas em uma fase só.
Aproximar o quadro. Às vezes é possível levar o padrão para mais perto da casa, dentro das regras da distribuidora para a localização da medição. Cada metro tirado do alimentador vale mais do que qualquer aumento de bitola.
8. Condutores que acompanham as fases
- Neutro: mantenha a mesma seção das fases. Com cargas de 127 V desequilibradas, o neutro carrega a diferença entre as fases.
- Condutor de proteção (terra): pela NBR 5410, para fases entre 16 mm² e 35 mm², o condutor de proteção pode ser de 16 mm². No caso de 35 mm², use PE de 16 mm².
- Eletroduto: três cabos de 35 mm² mais o terra exigem eletroduto bem maior do que o usual em residências. Verifique a taxa de ocupação antes de comprar.
- Terminais: cabo de 35 mm² não entra em borne comum de disjuntor residencial. Use terminal de compressão e confira a capacidade do borne no catálogo.
9. Como ler o padrão e medir o percurso
No padrão, procure a corrente nominal do disjuntor geral (ela limita a demanda, não a seção do alimentador) e a categoria de ligação. No terreno, meça o percurso real do eletroduto, não a distância em linha reta: subidas de poste ou parede, curvas e a sobra dentro das caixas somam vários metros em 60 m.
10. Sintomas de alimentador subdimensionado
- lâmpadas que perdem brilho quando liga o chuveiro, mesmo em outro cômodo;
- tensão medida no quadro bem menor do que no padrão com a casa em uso;
- ar-condicionado ou geladeira com dificuldade de partida nos horários de pico;
- aquecimento nas conexões do disjuntor geral ou da entrada do quadro.
Com um multímetro, meça a tensão no padrão e no quadro com uma carga forte ligada. A diferença dividida pela tensão do padrão é a queda real do alimentador.
11. Erros comuns
- Copiar a bitola do vizinho. Mesma demanda, outra distância, outra resposta.
- Esquecer que a queda se soma. Um alimentador "aprovado" com 4,5 % reprova toda a casa.
- Trocar o disjuntor geral por um maior. Ele é definido pela distribuidora e não resolve queda de tensão.
- Emendar o alimentador no meio do caminho. Em 60 m, compre o cabo inteiro.
12. Perguntas frequentes
Posso usar 25 mm² e aceitar mais queda? Pode, desde que os circuitos internos fiquem curtos. Com 25 mm² o alimentador gasta 2,45 % e sobram 2,55 % para o circuito terminal mais distante.
O cabo de 10 mm² aguenta a corrente. Por que não serve? Porque aguenta sem esquentar, mas perde 6,14 % de tensão nos 60 m, acima do limite total da instalação.
E se a demanda for menor, de 8 kW? A corrente cai para 36,4 A e a queda com 25 mm² fica em 1,79 %, já dentro da meta de 2 %.
Até que distância o cabo de 35 mm² mantém 2 % para esta casa? Até cerca de 68 m, metade do alcance que ele teria com a meta de 4 % (137 m).
13. Resumo do caso
| Item | Resultado |
|---|---|
| Demanda | 11 kW |
| Corrente de projeto | 50,0 A |
| Disjuntor | 50 A |
| Seção pela corrente | 16 mm² |
| Seção adotada (meta 2 %) | 35 mm² |
| Queda nos 60 m | 1,75 % |
| Condutor de proteção | 16 mm² |
Para testar outra demanda, outra distância ou outra meta de queda, use a calculadora de bitola com os seus números. O projeto do alimentador e a ligação ao padrão devem ser feitos por profissional habilitado e seguir as normas da sua distribuidora.
Faça a conta com os seus dadosCalculadora de Bitola de Fio→Fontes e referências
- ABNT NBR 5410:2004 – Instalações elétricas de baixa tensão limites de queda de tensão a partir do ponto de entrega e nos circuitos terminais, capacidade de condução e seção do condutor de proteção
- ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica regras de fornecimento em tensão secundária e faixas de tensão adequada no ponto de conexão (PRODIST)
- IEC 60364-5-52 – Selection and erection of electrical equipment: wiring systems método de queda de tensão e tabelas de capacidade que a NBR 5410 adota
- Calculadora de queda de tensão do SizeBench a mesma fórmula deste guia, para qualquer seção e comprimento
- Calculadora de bitola de fio do SizeBench seção mínima por corrente e por queda, com os seus dados
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