Caso real · Energia Solar e Baterias

Taxa mínima e dimensionamento solar: quantos kWh descontar

Uma casa pequena em Fortaleza gasta 180 kWh por mês. O orçamento veio com três placas. A conta da taxa mínima mostra que duas resolvem, e que o tipo de ligação pesa mais do que parece em consumos baixos.

Taxa mínima e dimensionamento solar: quantos kWh descontar

O caso: casa de dois cômodos em Fortaleza, conta média de 180 kWh/mês, ligação monofásica. A proposta recebida previa 3 placas de 550 W. Adotamos 5,6 HSP e 20% de perdas.

Resposta curta: a monofásica sempre fatura o equivalente a 30 kWh, então a meta de geração é 150 kWh/mês, ou 1,12 kWp. A conta exata dá 2,03 placas. Com 2 placas, o sistema cobre 98,6% da meta; com 3, gera 72 kWh por mês a mais do que a casa pode abater. Aqui, 2 placas são a escolha racional.

Medidor de energia elétrica em preto e branco
Figura 1. O medidor registra o que entra e o que sai; o mínimo da ligação é cobrado de qualquer forma. Foto: Jon Moore / Unsplash

1. O que é o custo de disponibilidade

Toda unidade consumidora ligada à rede paga um valor mínimo mensal, mesmo que não consuma nada. A Resolução Normativa nº 1.000/2021 da ANEEL define esse mínimo em quilowatts-hora, conforme o tipo de ligação:

Ligação Mínimo faturado Em que casos aparece
Monofásica 30 kWh casas pequenas, cargas leves
Bifásica 50 kWh casas com chuveiro e ar-condicionado em 220 V
Trifásica 100 kWh casas grandes, motores, comércio

Com geração solar, o mínimo continua lá. A energia injetada abate o consumo, mas a fatura não desce abaixo desse piso. Por isso a calculadora tem um campo específico para ele: meta de geração = consumo médio − mínimo da ligação.

Vale notar que o mínimo é cobrado em kWh e convertido pela tarifa vigente, então ele acompanha os reajustes como qualquer outro consumo. Para dimensionar placas, porém, só interessa o número em kWh: é ele que sai da meta de geração, mês após mês, durante toda a vida do sistema.

O tipo de ligação aparece na própria conta de luz, em geral perto dos dados da unidade consumidora ("monofásico", "bifásico" ou "trifásico", às vezes como "classe" ou "tipo de fornecimento").

2. A conta deste caso

  • Consumo médio: 180 kWh/mês
  • Mínimo da monofásica: 30 kWh
  • Meta: 150 kWh/mês, ou 5,00 kWh/dia
  • Potência: 5,00 ÷ (5,6 × 0,80) = 1,12 kWp
  • Placas: 1.116 ÷ 550 = 2,03

A regra geral manda arredondar para cima, o que daria 3 placas. Mas 2,03 está colado em 2. Cada placa de 550 W gera cerca de 73,9 kWh/mês aqui, então:

Opção Geração Cobertura da meta Sobra ou falta
2 placas 148 kWh 98,6% -2,2 kWh
3 placas 222 kWh 147,8% +72 kWh

Faltar 2,2 kWh por mês significa pagar essa energia à distribuidora além do mínimo, quase nada. Sobrar 72 kWh significa gerar créditos que esta casa não tem como usar.

Meta (180 − 30)150 kWh2 placas148 kWh3 placas222 kWh
Figura 2. Meta de geração em Fortaleza e geração mensal com 2 ou 3 placas de 550 W, a 5,6 HSP e 20% de perdas.

3. A mesma conta em outras ligações

Para os mesmos 180 kWh:

Ligação Meta kWp Placas de 550 W Parcela compensável
Monofásica 150 kWh 1,12 3 83%
Bifásica 130 kWh 0,97 2 72%
Trifásica 80 kWh 0,60 2 44%

"Parcela compensável" é a fatia do consumo que a geração solar pode abater. Numa casa trifásica de 180 kWh, mais de metade do consumo já está "travado" pelo mínimo; a energia solar só alcança 44% dela.

02448729612002004006008001.000Consumo médio mensal (kWh)Parcela compensável (%)Este casoMonofásicaBifásicaTrifásica
Figura 3. Fatia do consumo que a geração solar consegue abater, por tipo de ligação, depois de descontado o mínimo faturado.
Conjunto de painéis solares no telhado de um prédio
Figura 4. Em consumos baixos, cada placa representa uma fatia grande da conta, e o arredondamento pesa. Foto: Chirayu Trivedi / Unsplash

4. Onde o mínimo deixa de importar

Em consumos altos, o desconto vira detalhe. Veja o número de placas de 550 W em Fortaleza para cada consumo e ligação:

Consumo Monofásica Bifásica Trifásica Sem descontar
100 kWh 1 1 0 2
150 kWh 2 2 1 3
200 kWh 3 3 2 3
300 kWh 4 4 3 5
500 kWh 7 7 6 7
800 kWh 11 11 10 11

Até uns 300 kWh, o mínimo pode mudar o sistema em uma ou duas placas, o que em sistemas tão pequenos é uma fração grande do total. Acima de 500 kWh, a diferença se dilui.

100 kWh50%150 kWh67%200 kWh75%300 kWh83%500 kWh90%800 kWh94%
Figura 5. Parcela compensável numa ligação bifásica, por consumo: quanto menor a conta, mais o mínimo de 50 kWh pesa.

5. Regra prática para arredondar

Quando a conta dá um número fracionário de placas, arredondar para baixo deixa uma parte da meta descoberta. A cobertura fica em parte inteira ÷ número exato:

Conta exata Para baixo Cobertura Para cima Excesso
2,03 (este caso) 2 98,6% 3 48%
2,10 2 95,2% 3 43%
2,25 2 88,9% 3 33%
2,50 2 80,0% 3 20%
6,10 6 98,4% 7 15%
2,0398,6%2,1095,2%2,2588,9%2,5080,0%
Figura 6. Cobertura da meta ao arredondar para 2 placas quando a conta exata dá 2,03, 2,10, 2,25 ou 2,50 placas.

Em sistemas pequenos, cada placa é uma fatia grande do total, e arredondar para cima pode criar 40% ou 50% de excesso. Uma regra razoável: se arredondar para baixo ainda cobre uns 95% da meta e não há uso para créditos extras, fique com o número menor. Lembre também que as placas perdem um pouco de potência por ano; quem prefere folga para o futuro pode justificar a placa extra, desde que saiba que ela vai gerar crédito sobrando nos primeiros anos.

6. Quando o consumo é menor que o mínimo

Em casas de veraneio ou imóveis fechados parte do ano, há meses em que o consumo medido fica abaixo de 30, 50 ou 100 kWh. Nesses meses a conta já é o mínimo, com ou sem placas. Para esse perfil, a média de 12 meses engana: some só os meses acima do mínimo e veja quanto realmente pode ser abatido. Muitas vezes a resposta é que um sistema solar nessa unidade só faz sentido se os créditos forem levados para outra.

7. O que a Lei 14.300/2022 acrescentou

O mínimo da ligação não é a única parcela que fica na conta. Para sistemas que pediram acesso depois do período de transição previsto na Lei 14.300/2022, a energia compensada passa a pagar, de forma gradual ao longo dos anos até 2029, uma parte da tarifa referente ao uso da rede de distribuição. Também continuam a contribuição de iluminação pública e os tributos conforme a regra do estado.

Na prática, isso reforça a mesma conclusão: não faz sentido gerar energia além do que a casa consegue abater. A forma exata como o mínimo e essa parcela aparecem juntos na fatura depende das regras de faturamento vigentes; confira na conta depois que o sistema estiver ligado.

8. E se sobrar crédito?

O sistema de compensação permite usar créditos em outra unidade consumidora do mesmo titular na mesma área de concessão (o chamado autoconsumo remoto). Se a família tiver, por exemplo, uma casa de praia ou um ponto comercial no mesmo nome, as 3 placas podem fazer sentido, desde que os créditos sejam direcionados para lá. Sem isso, os créditos acumulam e expiram depois de 60 meses.

9. Como ler a conta antes de pedir orçamento

  • Tipo de ligação: define o mínimo (30, 50 ou 100 kWh).
  • Histórico de 12 meses: use a média, não o último mês.
  • Consumo faturado x consumo medido: se o medido é menor que o mínimo, a conta mostra o mínimo.
  • Bandeira e tributos: não mudam o número de placas, que é calculado em kWh.

10. Checklist

  1. Média de 12 meses calculada.
  2. Mínimo da ligação descontado.
  3. Placas arredondadas com bom senso quando o número fracionário fica logo acima de um inteiro.
  4. Destino dos créditos excedentes definido.
  5. Geração estimada mês a mês informada na proposta.

11. Erros comuns

  • Dimensionar pelo consumo cheio. Com 180 kWh, a conta daria 1,34 kWp, ou 2,44 placas, e empurraria o projeto direto para 3.
  • Arredondar para cima por reflexo quando a conta dá 2,03.
  • Ignorar o tipo de ligação ao comparar com a conta do vizinho.
  • Prometer conta zerada. O mínimo sempre fica.

Perguntas frequentes

Minha conta é de 120 kWh na monofásica. Solar vale a pena? A meta seria 90 kWh. A conta exata dá 1,22 placas, ou seja, 2 placas arredondando para cima; uma só cobriria 82% da meta. O mínimo representa 25% do consumo, e o sistema fica muito pequeno.

Quanto gera uma placa de 550 W em Fortaleza? Cerca de 74 kWh/mês com 5,6 HSP e 20% de perdas.

Na bifásica, com o mesmo consumo, quantas placas? A meta cai para 130 kWh: 2 placas.

Trocar a ligação bifásica por monofásica reduz o mínimo? Reduz para 30 kWh, mas só é possível se a carga da casa couber numa ligação monofásica; isso é definido com a distribuidora.

E se o consumo crescer depois? Com 250 kWh na monofásica, a meta passa a 220 kWh e o sistema a 3 placas.

Resumo do caso

Item Resultado
Consumo médio 180 kWh/mês
Ligação e mínimo monofásica, 30 kWh
Meta de geração 150 kWh/mês
Potência necessária 1,12 kWp
Conta exata 2,03 placas
Escolha 2 placas de 550 W (98,6% da meta)

Coloque o seu consumo e o mínimo da sua ligação na calculadora de energia solar e veja quantas placas a conta realmente pede.

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Fontes e referências

  1. ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica Resolução Normativa nº 1.000/2021: custo de disponibilidade de 30, 50 e 100 kWh por tipo de ligação
  2. Lei nº 14.300/2022 – marco legal da micro e minigeração distribuída compensação de créditos, autoconsumo remoto e transição da cobrança pelo uso da rede
  3. CRESESB/CEPEL – Potencial Solar SunData v3.0 irradiação média no litoral cearense
  4. Calculadora de energia solar do SizeBench campo de taxa mínima e conta de placas

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