Caso real · Elétrica

Dois ares-condicionados no mesmo circuito: pode?

Reforma de um apartamento: um split de 9000 BTUs no quarto das crianças e um de 12000 BTUs na suíte, em quartos vizinhos. O dono propôs puxar um único cabo do quadro e dividir na parede entre os dois. Economiza cabo e uma posição no quadro. Mas pode?

Dois ares-condicionados no mesmo circuito: pode?

O caso: dois splits inverter em 220 V, um de 9000 BTUs (corrente máxima de placa de 7 A) e um de 12000 BTUs (9 A), ambos a cerca de 15 m do quadro, cabo de cobre em eletroduto embutido (método B1).

Resposta curta: com dois aparelhos pequenos, um circuito compartilhado de 2,5 mm² com disjuntor de 16 A fecha na conta, e a NBR 5410 não o proíbe expressamente, porque nenhum dos dois passa de 10 A. Mas os fabricantes pedem circuito exclusivo, e a solução recomendada é um circuito para cada aparelho: 2,5 mm² e 10 A em cada um.

Duas condensadoras de ar-condicionado lado a lado na fachada de um prédio
Figura 1. Duas condensadoras lado a lado não significam que elas devam dividir o mesmo circuito. Foto: Kien Nguyen / Unsplash

1. O que a norma diz, em palavras

A NBR 5410 pede que a instalação seja dividida em circuitos conforme a finalidade, separando iluminação, tomadas e equipamentos, e exige circuito independente para todo equipamento com corrente nominal acima de 10 A. Um split de 18000 BTUs ou maior, ou um 12000 BTUs em 127 V, já cai nessa regra sozinho e não pode dividir circuito com nada.

Com os aparelhos do caso, ambos abaixo de 10 A em 220 V, a norma não traz uma proibição direta de alimentá-los juntos, desde que o circuito seja dimensionado para a soma das correntes. É aqui que muita gente para de ler. Os dois pontos seguintes mudam a decisão.

2. O que os fabricantes dizem

Os manuais de instalação de splits, de forma geral, pedem circuito exclusivo com disjuntor próprio para o aparelho, e muitos condicionam a garantia a isso. O motivo é prático: a placa eletrônica do inverter é sensível a variações de tensão, e outro compressor partindo no mesmo circuito provoca exatamente esse tipo de variação. Leia o manual dos seus modelos; se ele exige circuito exclusivo, a discussão termina aí.

E o multi-split?

Existe um jeito de climatizar dois quartos com um único circuito sem improviso: o multi-split, em que uma só condensadora alimenta duas ou mais evaporadoras. Nesse caso, o fabricante projeta o conjunto para um circuito, informa uma corrente máxima única na placa da condensadora e indica cabo e disjuntor para ela. A conta é feita com essa corrente, como se fosse um aparelho só. A diferença em relação ao improviso é que a eletrônica do conjunto coordena os compressores e a partida; dois splits independentes no mesmo cabo não conversam entre si.

3. A conta do circuito compartilhado

Supondo os dois aparelhos funcionando juntos no máximo, numa tarde quente (é o que acontece na prática, sem fator de diversidade):

  • Corrente somada: 7 + 9 = 16 A.
  • Disjuntor: 16 A curva C.
  • Cabo: 2,5 mm², capacidade de 24 A no método B1.
  • Queda de tensão nos 15 m: 1,96%.
Quadro16 A curva CDR 30 mA2,5 mm²15 m9000 + 12000BTUs220 VQueda de tensão 1,96 %
Figura 2. A alternativa compartilhada: um disjuntor de 16 A alimentando os dois splits pelo mesmo cabo. Fecha na conta, mas um defeito em um aparelho desliga os dois.

Repare num detalhe: o disjuntor de 16 A está exatamente na corrente somada. Qualquer aparelho que puxe um pouco acima do valor de placa, por tensão baixa ou filtro sujo, leva a desarmes por sobrecarga nas tardes mais quentes. A queda de tensão também dobra em relação a cada circuito separado, porque a corrente que percorre o trecho comum é a soma.

4. A conta com dois circuitos

Circuito Corrente Disjuntor Cabo Queda em 15 m
Split 9000 BTUs 7 A 10 A 2,5 mm² 0,86%
Split 12000 BTUs 9 A 10 A 2,5 mm² 1,10%
Compartilhado 16 A 16 A 2,5 mm² 1,96%

Em material, a diferença é um segundo lance de cabo de 2,5 mm² (fase, fase e terra) e um disjuntor a mais. Em troca, cada aparelho tem proteção ajustada à sua corrente, a queda de tensão de cada um fica abaixo da metade e uma falha num quarto não deixa o outro no calor.

02468100102030405060Comprimento do cabo (m)Queda (%)15 mCompartilhado (16 A)Só o 12000 (9 A)limite 4 %Só o 9000 (7 A)
Figura 3. Queda de tensão com cabo de 2,5 mm² em 220 V: o circuito compartilhado chega ao limite perto de 31 m; cada circuito individual vai muito além.

5. Outras combinações

Mesma distância de 15 m, 220 V, correntes máximas típicas de placa:

Combinação Corrente somada Disjuntor Cabo Algum aparelho acima de 10 A?
9000 + 9000 14 A 16 A 2,5 mm² Não
9000 + 12000 16 A 16 A 2,5 mm² Não
12000 + 12000 18 A 20 A 2,5 mm² Não
12000 + 18000 22,5 A 25 A 4 mm² Sim: o 18000 exige circuito próprio
18000 + 18000 27 A 32 A 4 mm² Sim: os dois exigem circuito próprio
9000 + 900014 A A9000 + 1200016 A A12000 + 1200018 A A12000 + 1800022,5 A A18000 + 1800027 A A
Figura 4. Corrente somada de dois splits em 220 V. A partir da combinação com um 18000 BTUs, o compartilhamento deixa de ser opção pela própria NBR 5410.

As duas últimas linhas mostram que a calculadora até encontra um cabo e um disjuntor para a soma, mas a norma não admite o arranjo, porque há aparelho acima de 10 A.

Alicate amperímetro preto e amarelo
Figura 5. Com um alicate amperímetro, dá para medir a corrente real de cada aparelho e da soma dos dois. Foto: Hobi industri / Unsplash

6. O caso mais comum (e pior): pendurar o ar no circuito de tomadas

Mais frequente do que dividir um circuito novo entre dois ares é ligar o split numa tomada de um circuito que já existe. Um circuito de tomadas de quarto, em 2,5 mm² com disjuntor de 20 A, já alimenta carregadores, TV, luminárias de cabeceira, às vezes um aquecedor no inverno. Ao somar os 9 A de um split de 12000 BTUs, sobram cerca de 11 A para todo o resto. Basta um secador de cabelo ou um aquecedor portátil para o disjuntor desarmar, e o morador costuma "resolver" trocando o disjuntor por um maior, deixando o cabo sem proteção.

7. E o DR?

Um DR de 30 mA atua quando a soma das correntes de fuga do circuito passa de um certo valor. Placas eletrônicas de aparelhos inverter têm filtros que deixam escapar pequenas correntes para o terra. Com dois aparelhos atrás do mesmo DR, as fugas se somam, e desarmes sem defeito aparente ficam mais prováveis. Com circuitos separados, cada um com seu DR (ou um DR para poucos circuitos), o problema diminui e fica mais fácil achar a causa quando algo desarma.

8. Como medir o que já está instalado

Se a casa já tem dois ares no mesmo circuito e você quer saber se está tudo bem:

  1. Ligue os dois aparelhos no máximo, numa tarde quente, com as portas fechadas.
  2. Depois de 15 minutos, meça a corrente no cabo que sai do disjuntor com um alicate amperímetro.
  3. Compare com a corrente do disjuntor e com a capacidade do cabo (24 A para 2,5 mm² no método B1).
  4. Meça a tensão no quadro e em cada condensadora; a diferença é a queda real.
  5. Toque o disjuntor e o ponto de emenda na parede: devem estar no máximo mornos.

Se a corrente medida passar de 80% da corrente do disjuntor, ou se o ponto de derivação estiver quente, é hora de separar os circuitos.

9. Sinais de que o compartilhamento está dando problema

  • Desarme do disjuntor quando o segundo aparelho é ligado ou quando os dois aceleram juntos.
  • Um dos aparelhos exibe erro de tensão enquanto o outro funciona.
  • Escurecimento ou cheiro na caixa onde o cabo se divide.
  • DR desarmando em dias úmidos sem defeito identificado.

10. Erros comuns

  • Somar só as potências nominais. Use a corrente máxima de placa de cada aparelho.
  • Fazer a derivação com emenda torcida e fita dentro de uma caixa apertada. Se houver derivação, ela precisa de conectores adequados e caixa acessível.
  • Achar que "não pode" vale só para aparelhos grandes. Mesmo com aparelhos pequenos, o manual costuma exigir circuito exclusivo.
  • Esquecer o terra em um dos ramais. Cada aparelho precisa do seu condutor de proteção ligado à carcaça.

11. Perguntas frequentes

Dois de 9000 BTUs podem ficar no mesmo circuito? Pela conta, sim: 14 A, disjuntor de 16 A e cabo de 2,5 mm². Mas confira o manual; a maioria pede circuito exclusivo, e dois circuitos são a solução mais robusta.

E um de 18000 com um de 9000? Não. O 18000 BTUs tem corrente acima de 10 A e precisa de circuito independente pela NBR 5410.

Em 127 V muda alguma coisa? Muda bastante. Um 12000 BTUs em 127 V puxa perto de 15,5 A, acima de 10 A, então precisa de circuito próprio, sem discussão.

Qual a distância máxima do circuito compartilhado? Com 16 A e 2,5 mm² em 220 V, a queda chega a 4% perto de 31 m. A 30 m a calculadora já indica 2,5 mm².

Dá para usar um disjuntor bipolar de 20 A para os dois? Com cabo de 2,5 mm² (24 A), a proteção do cabo fica garantida. Mas um disjuntor maior que a soma não resolve o problema principal: os dois aparelhos continuam dependendo de um só dispositivo.

12. Resumo

Item Compartilhado Dois circuitos (recomendado)
Disjuntores 1 × 16 A 10 A + 10 A
Cabo 2,5 mm² 2 × 2,5 mm²
Queda em 15 m 1,96% 0,86% e 1,10%
Falha em um aparelho desliga os dois desliga só ele
Atende ao manual geralmente não sim

Use a calculadora de bitola para dimensionar cada circuito com a corrente de placa dos seus aparelhos; a montagem fica a cargo de um profissional habilitado.

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Fontes e referências

  1. ABNT NBR 5410:2004 – Instalações elétricas de baixa tensão divisão da instalação em circuitos, circuito independente para equipamentos acima de 10 A e coordenação entre disjuntor e cabo
  2. IEC 60898-1 – Circuit-breakers for overcurrent protection for household and similar installations curva C e escolha da corrente nominal do disjuntor
  3. IEC 61008-1 – Residual current operated circuit-breakers without integral overcurrent protection DR de 30 mA e efeito de somar correntes de fuga de vários aparelhos num mesmo dispositivo
  4. Calculadora de bitola de fio do SizeBench dimensionamento do circuito com a soma das correntes
  5. Calculadora de disjuntor do SizeBench escolha do disjuntor para cada combinação de aparelhos

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