Caso real · Elétrica

Motor de 1/2 cv em 127 V: fio, disjuntor e partida

Num sítio, a bomba que enche a caixa d'água fica perto do poço, a 35 m do quadro, e só há 127 V disponível. Ela funciona, mas às vezes "engasga" para ligar. O motor de 1/2 cv puxa pouca corrente; o problema está nos primeiros instantes de cada partida.

Motor de 1/2 cv em 127 V: fio, disjuntor e partida

O caso: bomba centrífuga com motor monofásico de 1/2 cv (capacitor de partida), ligada em 127 V, a 35 m de cabo do quadro, condutores de cobre com isolação de PVC em eletroduto. Potência elétrica adotada: 650 W, fator de potência 0,8 (a mesma base usada pelas calculadoras do site). Corrente de partida suposta: 6 vezes a nominal.

Resposta curta: em funcionamento, o motor puxa 6,4 A e o cabo de 2,5 mm² com disjuntor de 10 A curva C atende (3,17 % de queda). Na partida, porém, a corrente vai a cerca de 38 A e a queda no 2,5 mm² chega a 19,0 %. Para partir firme, use 6 mm² (7,9 % na partida) ou, melhor ainda, ligue o motor em 220 V.

Close de um motor elétrico novo com carcaça metálica
Figura 1. Na placa do motor estão a corrente nominal e, em muitos modelos, a relação entre a corrente de partida e a nominal, os dois números que dimensionam o circuito. Foto: Mika Baumeister / Unsplash
Quadro10 A · CDR 30 mA6 mm²35 mBomba 1/2 cv127 VPartida: queda de 7,9 %
Figura 2. Circuito da bomba em 127 V: disjuntor de 10 A curva C, DR e cabo de 6 mm², escolhido pela queda na partida, não pela corrente de regime.

1. Quanto o motor puxa funcionando

Meio cavalo-vapor são 367,8 W no eixo. Motores monofásicos pequenos têm rendimento modesto, e por isso a potência elétrica adotada é de 650 W (57 % de rendimento). Com fator de potência 0,8:

I = 650 ÷ (127 × 0,8) = 6,40 A

É uma corrente pequena. Pela capacidade, até um cabo de 1,5 mm² daria conta, mas o mínimo da NBR 5410 para circuitos de força é 2,5 mm². Nos 35 m, a queda em regime fica em 3,17 %: aprovado.

2. O que acontece na partida

Parado, o motor é quase um curto-circuito: só a resistência e a reatância do enrolamento limitam a corrente. Até atingir a rotação, ele pode puxar de 5 a 8 vezes a corrente nominal. Com a suposição de 6 vezes:

I partida ≈ 6,40 × 6 = 38,4 A

Esse pico dura menos de um segundo numa bomba com partida normal, mas é suficiente para:

  • derrubar a tensão no cabo, justamente quando o motor precisa de mais torque;
  • disparar um disjuntor de curva errada;
  • piscar as lâmpadas da casa, se o circuito for longo.

3. Como o motor monofásico parte

Um motor de indução monofásico, sozinho, não tem torque de partida: o campo de um único enrolamento pulsa, mas não gira. Para resolver isso, o motor da bomba tem um enrolamento auxiliar ligado em série com um capacitor de partida, que defasa a corrente e cria o campo girante dos primeiros instantes.

Quando o rotor chega a cerca de três quartos da rotação, uma chave centrífuga (ou um relé, em alguns modelos) desliga o enrolamento auxiliar e o capacitor. A partir daí o motor segue só com o enrolamento principal.

Isso explica dois comportamentos do caso:

  • se a tensão estiver baixa, o rotor demora a chegar à rotação de desligamento da chave centrífuga, o capacitor fica mais tempo no circuito e esquenta;
  • se a bomba "ronca" e não gira, a causa pode ser tensão baixa, capacitor fraco ou chave centrífuga travada, e só uma medição separa as três.

Por isso a primeira medição a fazer, antes de trocar qualquer peça, é a tensão nos bornes do motor no instante da partida, com um multímetro que registre o valor mínimo. Se ela cair muito abaixo de 115 V, o problema está no cabo ou na rede, não no motor.

4. Torque cai com o quadrado da tensão

O torque de partida de um motor de indução é aproximadamente proporcional ao quadrado da tensão nos seus terminais. Uma queda de 20 % na tensão tira cerca de 36 % do torque. Para uma bomba que precisa vencer a coluna d'água parada, isso é a diferença entre partir e "roncar".

Cabo (35 m) Queda na partida Tensão no motor Torque de partida disponível
2,5 mm² 19,0 % 103 V 66 %
4 mm² 11,9 % 112 V 78 %
6 mm² 7,9 % 117 V 85 %
2,5 mm²66 % %4 mm²78 % %6 mm²85 % %
Figura 3. Torque de partida disponível em relação ao nominal, considerando só a queda no cabo de 35 m em 127 V. Se a rede já chega abaixo de 127 V, os valores pioram.

A NBR 5410 trata a partida de motores como um caso à parte na queda de tensão, com 10 % como referência nos terminais do dispositivo de partida. Com 2,5 mm² o caso fica bem acima; o 4 mm² chega perto; o 6 mm² fica abaixo.

061218243001020304050Distância quadro–bomba (m)Queda na partida (%)35 m2,5 mm²4 mm²6 mm²referência 10 %
Figura 4. Queda de tensão durante a partida do motor de 1/2 cv em 127 V, com 38 A de pico. Nos 35 m do caso, só o cabo de 6 mm² fica abaixo de 10 %.

5. O disjuntor: corrente e curva

A corrente de regime (6,4 A) leva ao disjuntor de 10 A. A curva é que decide se ele aguenta a partida:

Curva Disparo instantâneo (10 A) Pico de partida Resultado
B de 30 A a 50 A 38 A pode desarmar ao ligar
C de 50 A a 100 A 38 A aguenta a partida

A curva B, comum em quadros residenciais para iluminação e tomadas, dispara magneticamente entre 3 e 5 vezes a corrente nominal. A curva C, entre 5 e 10 vezes. Para motores, curva C.

O disjuntor de 10 A também é coordenado com qualquer cabo a partir de 2,5 mm². Quem escolhe 6 mm² pela partida não precisa trocar o disjuntor.

Tubulações metálicas vermelhas conectadas a uma parede
Figura 5. Bomba parte com a coluna d'água parada: é nesse instante, com torque máximo exigido, que a tensão mais cai no cabo. Foto: Sebastian Morelli-Peyton / Unsplash

6. A saída mais barata pode ser 220 V

Muitos motores de 1/2 cv são bivolt. Se houver duas fases no quadro, a mesma bomba em 220 V puxaria 3,69 A em regime e cerca de 22 A na partida. Com cabo de 2,5 mm² nos mesmos 35 m, a queda na partida cairia para 6,3 %.

Ou seja: em 220 V, o cabo mínimo da norma já resolve o que em 127 V exige 6 mm². A troca pede disjuntor bipolar e mudança dos jumpers na caixa de ligação do motor, conforme o esquema da placa.

7. A mesma bomba em outras distâncias (127 V)

Distância 2,5 mm² 4 mm² 6 mm²
15 m 8,2 % 5,1 % 3,4 %
25 m 13,6 % 8,5 % 5,7 %
35 m 19,0 % 11,9 % 7,9 %
50 m 27,2 % 17,0 % 11,3 %

Valores de queda na partida. Até uns 15 m, o 2,5 mm² fica perto dos 10 %; a partir daí, a bitola sobe rápido.

8. Boia, pressostato e contator

Bombas de caixa d'água costumam ser ligadas por uma boia elétrica; bombas de pressurização, por um pressostato. Os dois têm contatos com corrente máxima informada pelo fabricante, às vezes em cv ou em ampères para carga de motor. Compare com a corrente de partida, não só com a nominal. Se a boia não aguentar, ela comanda um contator, e o contator liga o motor.

9. Como ler a placa do motor

  • cv ou kW e rotação (rpm).
  • Tensões e correntes: no bivolt, "127/220 V" e duas correntes, por exemplo uma perto de 6,4 A e outra perto de 3,7 A.
  • Ip/In: relação de partida. Use esse número no lugar dos 6 vezes deste guia.
  • Capacitor: valor em µF e tensão. Capacitor de partida fraco imita os sintomas de tensão baixa.
  • Esquema de ligação para cada tensão.

10. Sinais de que a partida está sofrendo

  • motor que zumbe por um ou dois segundos antes de girar;
  • protetor térmico que atua depois de várias partidas seguidas;
  • lâmpadas da casa que piscam toda vez que a boia liga a bomba;
  • capacitor estufado ou trocado com frequência.

11. Erros comuns

  • Dimensionar o cabo só pela corrente nominal em circuito longo de 127 V.
  • Usar disjuntor curva B e culpar o motor pelos desarmes.
  • Trocar o capacitor por um de valor maior para "dar mais força".
  • Ligar a bomba pela boia sem conferir a capacidade dos contatos.

12. Perguntas frequentes

O 2,5 mm² está errado, então? Não pela norma em regime: a queda é de 3,17 %. Ele só é insuficiente para uma partida firme em 127 V nessa distância.

4 mm² não resolve? Melhora muito (11,9 % na partida). Se a rede chegar bem em 127 V, a bomba deve partir; com a rede baixa no horário de pico, o 6 mm² dá a segurança que faltava.

Preciso de DR para a bomba? Bombas em área externa, perto de água ou em poço úmido devem estar protegidas por DR de 30 mA, além do terra na carcaça.

Um inversor de frequência ou soft-starter resolveria? Para um motor monofásico de 1/2 cv com capacitor, não é a solução usual: esses equipamentos são pensados principalmente para motores trifásicos. Aqui, cabo adequado ou ligação em 220 V resolvem de forma mais simples.

Quanto a bomba consome? Suposição: 2 horas de funcionamento por dia, 30 dias. Resultado: 39 kWh por mês.

13. Resumo

Item Valor
Corrente em regime 6,40 A
Corrente de partida (estimada) 38 A
Disjuntor 10 A curva C
Cabo mínimo (regime) 2,5 mm² · 3,17 %
Cabo para partida firme (127 V) 6 mm² · 7,9 %
Em 220 V 2,5 mm² · 6,3 % na partida

Antes de comprar o cabo, anote a corrente e a relação Ip/In da placa e simule a distância real na calculadora de bitola. A ligação de motores deve ser feita por eletricista habilitado.

Faça a conta com os seus dadosCalculadora de Bitola de Fio→

Fontes e referências

  1. ABNT NBR 5410:2004 – Instalações elétricas de baixa tensão seção mínima de circuitos de força, queda de tensão em regime e durante a partida de motores
  2. ABNT NBR 17094-1 – Máquinas elétricas girantes – Motores de indução dados de placa e relação entre corrente de partida e corrente nominal
  3. IEC 60034-1 – Rotating electrical machines: rating and performance regimes de serviço e efeito da tensão de alimentação sobre o desempenho do motor
  4. IEC 60898-1 – Circuit-breakers for overcurrent protection for household and similar installations faixas de disparo instantâneo das curvas B e C
  5. Conversor cv, hp e kW do SizeBench conversão da potência do motor de cv para kW

Normas e dados por trás das nossas calculadoras

Como fizemos este guia

Todos os números deste guia são calculados pelo mesmo código das nossas calculadoras, a partir das normas listadas acima, e a página é testada antes de ser publicada. A Equipe SizeBench pesquisou, escreveu e revisou o texto; usamos automação e IA para ajudar na redação, nunca para gerar os números. Nossa metodologia →

Histórico de revisões

  • · Publicado